Em seu artigo “Encruzilhadas, nossas e de outros”, que saiu neste domingo no Estadão, Malan discorreu sobre o suposto sucesso do Plano Brady - aquele criado em 1989, com este nome em alusão ao então secretário do Tesouro norte-americano, Nicholas Brady, que previa a troca dos bônus dos países endividados da América Latina, por outros, com abatimentos modestos e mais alongados.
A propósito, vale lembrar aqui o que foi o Plano Brady. Àquela época, o Banco Mundial e o FMI ofereceram descontos e garantias aos novos títulos dos países que aderissem ao seu receituário. Mas as bondades, obviamente, não saíram de graça. O Plano Brady esteve na raiz da “década perdida” na América Latina, que ostentou crescimento tímido ou negativo por longos e sofridos anos.
Diminuição do Estado
As condições para a adesão ao plano partiam do pressuposto da adesão a privatizações, à diminuição do Estado (a tese do Estado mínimo) e a programas de austeridade. Em 1985, James Baker, sucessor de Brady, renovou o plano com novos empréstimos para os países que implementassem, ainda, redução de barreiras de importação, aumento de impostos e tarifas, desvalorização da moeda e redução de gastos governamentais.
Boa parte dos acordos em toda a América Latina, no entanto, não passou de tímidos descontos, sem uma redução significativa do endividamento desses países. Após alguns anos, eles estavam ainda mais endividados do que de início, principalmente diante das condições draconianas para o pagamento dos empréstimos, drenando recursos de uma esperada recuperação.
A discussão hoje em pauta na velha Europa retoma boa parte das mesmas amargas medidas dos planos Brady/Baker. O Brasil, portanto, tem o que dizer a respeito, por experiência própria, já que aderiu à negociação dos norte-americanos ao final 1994, pelas mãos do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso.
"Complexo de vira latas"
Ainda assim, Malan afirma: “Deixo ao leitor avaliar se estamos em condições de dar lições a outros países (no caso, os europeus), mais ricos (que o Brasil) em todas essas áreas. E se talvez não fosse melhor que estivéssemos muito mais voltados para nossas próprias encruzilhadas, que não são as mesmas com que se defrontam os países ricos.”
O ex-ministro repetiu, ainda que indiretamente, as críticas do jornal britânico, numa cena explícita de “complexo de vira latas”, como diria o nosso grande Nelson Rodrigues, coincidentemente no centenário de seu nascimento. O ex-ministro de FHC agiu como a Grã Bretanha nos velhos tempos, quando dominava o mundo e ameaçava os governos brasileiros antes da 1ª guerra mundial.
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