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Continuo. Senhor governador, não se assuste se nos próximos dias eu, de repente, possa surpreender alguém da sua família durante um passeio matinal no parque próximo a sua casa e lhe roubar o relógio, o tênis, o celular, a carteira. Espero que me entenda, é que vou continuar desempregado mesmo!
Governador, não se assuste se nos próximos dias eu invadir a casa de algum parente seu e roubar alguns objetos para trocar por alimentos. Espero que o senhor me compreenda, é que ainda vou estar desempregado. Sabe como é, né?
Senhor Serra, não se assuste se nos próximos dias eu, de repente, sequestrar seu filho a fim de conseguir uma grana para dar de comer e de vestir aos meus filhos e a minha companheira. Mas não se preocupe, seu filho não nos interessa, o importante é a grana. Veja bem, não se trata de uma ameaça, ou de uma bricadeira de mau-gosto, é apenas uma consequência da realidade. Afinal é bem provável que continuarei desempregado, então "é melhor me prevenir do que me remediar", certo?
Serra, não se assuste se nos próximos dias, ao passar de carro por uma das ruas do Brás, eu esteja num ponto a me prostituir. Vossa excelência deve saber que uma simples noitada me equivaleria a um mês inteiro pago pelo trabalho que desenvolvia para a educação do nosso Estado quando eu trabalhava.
Governador José Serra, não será surpresa se nos próximos dias eu lhe aparecer num desses programas sensacionalistas de televisão sendo filmado junto com outros companheiros de trabalho que também viraram mendigos, na cracolândia, ingerindo alucinógenos a fim de fugir da nossa realidade indignificante dessa droga de educação que propõe o seu governo.
Senhor José Serra, não se incomode se nos próximos dias o meu rosto e os rostos de outros companheiros aparecerem estampados na primeira capa dos principais jornais do nosso Estado, por termos sido presos no flagra por roubo à mão armada, porte ilegal de arma, formação de quadrilha e tráfico de drogas. Espero que o senhor nos entenda, é que o desemprego atingiu grande parte da categoria do professorado paulistano e vários colegas também acabaram rodando.
Senhor governador, não se incomode se nos próximos dias, quando sairmos vivos da penitenciária, (caso exista essa possibilidade) nós voltemos a roubar, ou a matar, e a aumentar as estatísticas.
Talvez o único emprego que nos resta seja o de dar fim aos corpos para reduzir os polêmicos números da violência em nosso Estado, para não pegar tão mal para o seu lado, afinal é ano de eleição, vossa excelência não gostaria de prejudicar o seu partido. Não é mesmo grande homem?
E governador, não se espante se de repente eu possa lhe surpreender numa dessas cerimônias oficiais de inauguração de obras e apontar um revólver para o meio da sua testa, e na iminência de disparo da bala que fará romper a sua caixa craniana e fixar parte dos seus neurônios em algum ponto do local onde estivermos, não hesitarei em procurar uma resposta para a minha indignação: o que o senhor entende por educação?
Tenho absoluta certeza de que a resposta não sairá com palavras. Ali mesmo serei brutalmente dominado por sua segurança público-privada e o sentido do disparo será invertido. Enquanto agonizo no chão, pensarei na única resposta que um velho pedagogo libertário deixou em algum livro empoeirado na estante de algum intelectual: "os opressores roubam dos oprimidos suas palavras, suas expressividades, suas culturas". E no último suspiro acrescento: os opressores nos roubam as nossas vid...
Senhor José Serra, não se surpreenda se de repente na revista Caros Amigos vossa excelência se depare com um texto insultuoso, ameaçador, indignado e desesperançoso, contra a sua política educacional, pois não se trata de ofensa pessoal, mas sim de uma posição legitimamente política. Vossa excelência deverá compreender que também não se trata de um pedido desesperador de emprego, pois não pratico mendicância institucional. Deverá entender que apenas exijo aquilo a que o direito unioversal corresponde: dignidade e respeito aos seres humanos.
Não me surpreenderei caso este texto também não seja lido por vossa excelência, afinal de contas este tipo de literatura não interessa e não incomoda a ninguém.
Por John Richardson, professor desempregado.
1 Mire a Funda Bem no Bico:
ainda bem que existem pessoas que olham esses corruptos
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